terça-feira, 26 de agosto de 2008

Teoria dos Pequenos Vestígios

As melhores recordações são aquelas que deixam apenas pequenos vestígios, não nos permitindo lembrar totalmente do que sentimos.

Me refiro aqui mais diretamente às lembranças da infância, elas são as mais fortes, pois ainda estamos livres das amarras do mundo, estamos o conhecendo, sem saber que teremos que nos controlar(e que seremos controlados) das mais variadas maneiras...

Quando lembramos exatamente ou quase(já que a memória é tão falha) de tudo, os acontecimentos parecem presentes demais para serem considerados lembranças, recordações. É como se ficássemos a repetir a todo instante aquilo que se passou, o mesmo, deixando de viver um agora. No entanto quando tentamos buscar no fundo do poço da memória a recordação, é como se estivessemos presentificando, revivendo, e ainda outra coisa(uma espécie de literatura da lembrança), pois muitas vezes podemos distorcer e recriar nossas próprias vivências.

Quando lembramos de pouco o que ocorre é uma espécie de dadaísmo, onde as coisas parecem estar revestidas de encantos intocáveis.
Muitas vezes o máximo que posso fazer é trazer a tona palavras, soltas e verdadeiramente livres, que remetem às lembrançinhas(de aniversário ou não).


Madeira Felpuda e Cheirosa
Cata-vento
Juquinha e Turma
Telescópio
Phantom
Rede
Manhãs de Mamão
Voleibol de Bexiga
Banhos roxos
Pano ensopado no vinagre



Todos temos certamente uma lista de pequenos vestígios. Reminiscências que nos aportam à uma vontade imensa de viver, de sentir, de criar cada vez mais instantes marcantes.
Então criem suas próprias listas!


"Quero ser uma proustituta da memória"

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Teoria da Nostalgia Medíocre

Noto já há um bom tempo uma forte semelhança entre as pessoas mais velhas, com suposta maior experiência.

A grande e massiva maioria sempre apresenta uma dicotomia intrínseca quando se voltam ao passado:
- ou o sujeito lamenta, de forma particularmente irritante, a perda de seu tempo, a falta de agitação;
- ou ele lamenta a passagem do tempo, de um passado que nunca mais voltará.
São sempre estes mesmos dois vértices que se encontram nos discursos, a lamentação:
tempo disperdiçado X tempo nostálgico.
Uma coisa é certa: sempre se chora as pitangas!

Não se dão nunca por satisfeitos. Só que não são inquietações criadoras, são sim posturas tesas e engessadas, de mãos atadas à impotência.
A estas duas formas de pensamento dou o nome de "nostalgia medíocre".
Elas impedem a existência do presente.

O que fazemos com nosso passado interfere diretamente no que está sendo nosso presente. E no que será nosso futuro.
Será possível então viver sem o tempo cravado em nossas mentes?
Eles devem estar todos misturados.


"Conseguir entrar num nível não histórico de vida... Valorizando o passado na medida em que ele é presente... Mas não é nada além do que é agora... Que se dane... A gente está... E isso nada pode destruir... A não ser que nos matem"

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Teoria das Miniaturas

A paixão nada mais é do que uma miniatura interna da pessoa que nos cativa.

Criamos e alimentamos pequenas criaturas dentro de nós.
E até que uma nova paixão surja, e consequentemente outra miniatura, ficamos a alimentá-las. Como se fossem mesmo uma espécie de feto, mas que nunca chega a ser parido. Elas nascem, crescem, adoecem, minguam e morrem sem nunca serem expelidas. Somos efetivamente hospedeiros dessas parasitas.

A grande questão é quanto alimentamos nossas miniaturas; se demais elas crescem vertiginosamente, podendo até nos engolir. Daí então nós é que viramos as miniaturas... E o pior: miniaturas diante do mundo.
Por isso uma frase que sempre tento profetizar (e permita-me deixar bem claro que sempre tenho o cuidado de pronuncia-la sem nenhum apelo megalomaníaco ou egóico): "Somos maiores do que tudo isso". Isso porque muitas vezes nos tornamos corcundas, encolhemos...

Acho que é possível sustentar mais de uma miniatura dentro de si, mas sempre atente a quanto as alimenta. Outro cuidado: não ir criando e deixando vivas muitas miniaturas, pois assim é capaz de você se tornar total refém delas... Como milhares de formigas que juntas podem te carregar pra onde bem quiserem.

Apesar de todos esses perigos sou fiel criador de miniaturas. Não me canso de criá-las. E quando não há como, fico inquieto.

Nova questão: quanto desta miniatura é realmente parte da figura original; terão elas (miniatura e versão grande) efetivamente alguma relação?
Enfim não quero entrar em mitos, muito menos em cavernas...


"Alimentarei sua miniatura pelo resto do meu viver"

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Teoria da Meia-Volta

Há algum tempo reparei que quase nunca vemos alguém na rua dando meia-volta. Será que todos estão realmente certos de seus caminhos?

Volta e meia isto me ocorre.
Decido algo, ou esqueço, e simplesmente paro meu andar bruscamente (dando um giro de 180°) e sigo o caminho inverso ao qual trilhava. Notei que isto cria uma espécie de frenesi nos outros transeuntes. Todos ficam assustados e um quê perplexos com esta atitude.

Mas por que tal estranhamento acontece? Será que são todos orgulhosos demais para admitirem que estão pegando o caminho errado?
Percebi também que algumas pessoas utilizam certos artifícios para burlar a meia-volta: atravessam a rua e daí então tomam o sentido contrário em que caminhavam; ou param numa farmácia, se pesam (em balanças que não cobram nada é claro) e ao sairem vão em outra direção...

Sou fiel defensor do direito de errar o caminho, de expressar publicamente, e em ação, que estamos equivocados e que por um motivo qualquer nos enganamos quanto à nossa direção.

Agora não posso evitar o soar daquela canção... Cantemos juntos:
"... vamos dar a meia-volta, volta e meia vamos dar! ..."