Há uns tempos atrás li um livro. "Caminhada" do Hermann Hesse.
Peguei esse livro na casa da minha vó, ela se desfez de várias coisas e disse que eu poderia pegar o que quisesse. Peguei alguns livros e discos. Esse livro foi um deles.
Logo que o abri vi uma dedicatória.
Minha mãe deu esse livro pro meu pai quando eles ainda namoravam... Vou reproduzir aqui o que ela escreveu:
"Marcus,
... Nada mais organizado,
daquilo que o amor organiza.
... Nada mais livre
daquilo que o amor une.
Quero que você seja o namorado mais livre e amado que existe.
Sandra, 12-06-1978".
Fiquei um pouco emocionado e bem apreensivo com estas palavras, e mais...
Fiquei pensando como a vida é múltipla em vários sentidos - amor, afeto,
Como é louco isso. Minha mãe vai se enxergar de alguma forma nessas palavras, mas com certeza vai observar também que essa é uma Sandra que ficou pra trás, que morreu de certa maneira, que não existe mais, e que não é mais ela.
Eu sempre pensei muito sobre essa questão: vivemos e morremos milhares de vezes dentro de nossas vidas, somos milhares ao mesmo tempo, sem nem ao menos perceber...
Uma situação que explica a existência de milhares num só é como para cada pessoa, para cada humor somos um singular.
Com algumas pessoas somos rudes, austeros e dominadores; com outras somos leves, inofensivos e tranquilos, é estranho.
Me parece que as forças de cada ser entram em um incessante digladiar entre si, e é desse embate que são fecundados os novos seres (não seria também o sexo uma forma de digladiar?).
Se em meu cotidiano travo relação com 44 pessoas sou 44 Ciros. E se em algum momento deixo de ter e perco contato com algum desses seres é como se um Eu morresse, deixasse mesmo de existir.
E esta Teoria é sobre isto: nossas existências múltiplas. Somos humanos, porém também camaleões, sem dúvida (e os biólogos que venham me afrontar há-há!).
Penso ainda em Robinson Crusoé. Ele estava isolado, mas para continuar a viver, a existir, criou mecanismos para gerar novos Eus, novos Robinsons, pois sem eles a vida não seria possível.
De modo que é isso: se queremos nos manter vivos não cessemos nunca de parir e assassinar nós mesmos.
"Talvez o mundo seja habitado por trilhões de pessoas,
e nem nos damos conta disso..."
terça-feira, 4 de novembro de 2008
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4 comentários:
Poxa, que novinha essa teoria hein carinha
q:i
Lindo o texto... certeza q eu sou várias e que essas várias geram várias outras bianca... e aquelas q deixei para trás, ontem, hoje de manhã, parecem outras q morreram...
acho q vc entende o q eu digo né!?
bjus
muito bonito este texto Mr Lublin!
Concordo com vc, vou até fazer aqui uma auto-citação: "Personagem como pessoa ou pessoa como personagem?"
Hoje o mundo é múltiplo, ele descobriu (está descobrindo, você, eu, nós vós eles) que pode ser múltiplo.
Parabens!
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