terça-feira, 4 de novembro de 2008

Teoria dos Seres Múltiplos

Há uns tempos atrás li um livro. "Caminhada" do Hermann Hesse.
Peguei esse livro na casa da minha vó, ela se desfez de várias coisas e disse que eu poderia pegar o que quisesse. Peguei alguns livros e discos. Esse livro foi um deles.
Logo que o abri vi uma dedicatória.
Minha mãe deu esse livro pro meu pai quando eles ainda namoravam... Vou reproduzir aqui o que ela escreveu:

"Marcus,

... Nada mais organizado,
daquilo que o amor organiza.
... Nada mais livre
daquilo que o amor une.

Quero que você seja o namorado mais livre e amado que existe.

Sandra, 12-06-1978".


Fiquei um pouco emocionado e bem apreensivo com estas palavras, e mais...
Fiquei pensando como a vida é múltipla em vários sentidos - amor, afeto,
Como é louco isso. Minha mãe vai se enxergar de alguma forma nessas palavras, mas com certeza vai observar também que essa é uma Sandra que ficou pra trás, que morreu de certa maneira, que não existe mais, e que não é mais ela.
Eu sempre pensei muito sobre essa questão: vivemos e morremos milhares de vezes dentro de nossas vidas, somos milhares ao mesmo tempo, sem nem ao menos perceber...

Uma situação que explica a existência de milhares num só é como para cada pessoa, para cada humor somos um singular.
Com algumas pessoas somos rudes, austeros e dominadores; com outras somos leves, inofensivos e tranquilos, é estranho.
Me parece que as forças de cada ser entram em um incessante digladiar entre si, e é desse embate que são fecundados os novos seres (não seria também o sexo uma forma de digladiar?).
Se em meu cotidiano travo relação com 44 pessoas sou 44 Ciros. E se em algum momento deixo de ter e perco contato com algum desses seres é como se um Eu morresse, deixasse mesmo de existir.

E esta Teoria é sobre isto: nossas existências múltiplas. Somos humanos, porém também camaleões, sem dúvida (e os biólogos que venham me afrontar há-há!).

Penso ainda em Robinson Crusoé. Ele estava isolado, mas para continuar a viver, a existir, criou mecanismos para gerar novos Eus, novos Robinsons, pois sem eles a vida não seria possível.
De modo que é isso: se queremos nos manter vivos não cessemos nunca de parir e assassinar nós mesmos.


"Talvez o mundo seja habitado por trilhões de pessoas,
e nem nos damos conta disso..."

4 comentários:

Não Sou disse...

Poxa, que novinha essa teoria hein carinha

q:i

Bianca Bibiano disse...

Lindo o texto... certeza q eu sou várias e que essas várias geram várias outras bianca... e aquelas q deixei para trás, ontem, hoje de manhã, parecem outras q morreram...
acho q vc entende o q eu digo né!?

bjus

bnagumo disse...

muito bonito este texto Mr Lublin!

autor desconhecido disse...

Concordo com vc, vou até fazer aqui uma auto-citação: "Personagem como pessoa ou pessoa como personagem?"
Hoje o mundo é múltiplo, ele descobriu (está descobrindo, você, eu, nós vós eles) que pode ser múltiplo.
Parabens!