terça-feira, 31 de março de 2009

Teoria do Congelamento

Muitas vezes passamos por situações curiosas: sejam de alegria, desconforto, embaraço ou catarse.
Nestes momentos o tempo parece se tornar praticamente estático, a impressão é de que aquele sentimento perturbador nunca passará. Ele passa, porém de uma maneira peculiar.

Para mim o que acontece é que estes momentos ficam como que congelados, presos em cubos de gelo (de tamanhos variados). Estes cubos de gelo ficam armazenados não em nossa memória, mas sim em algum tempo e espaço inexistente para nós, ou seja, que não podemos tocar nem se fazer sentir.

O mais curioso é que quando as situações passam pelo processo de congelamento elas carregam tudo consigo, numa espécie de grande varredura. Não se congela apenas o sentimento, seja ele de qual natureza for, você próprio é congelado. A pessoa que você estava sendo naquele exato instante é capturada.

A grande reviravolta vem quando os cubos de gelo derretem.

Esse momento pode vir sem mais nem menos. Basta algo ou alguém fazer lembrar aquela situação que fez tudo congelar.
Violentamente você passa a sentir tudo que havia sido guardado ali, no mais gélido espaço, e que você realmente havia esquecido. Não apenas o tema volta a ser abordado e trazido de uma espécie de vácuo, você também volta a ser aquela pessoa que era quando passara por aquela situação. Se você era ainda um bebê é bem capaz que vá começar a chupar o dedo e emitir onomatopéias irreproduzíveis no presente. Se era adolescente é capaz que volte a ficar absurdamente tímido, além de voltar a sentir o aparelho preso em seus dentes. Seus trejeitos, atitudes e tiques retornam.
Quando tudo se passa, e o cubo de gelo volta a seu estado e lugar usual, você sente que passou por algo bem estranho, se desgrudou de si para depois retornar.

Acho que as pessoas chamam comumente isto tudo de trauma. Mas esta palavra é muito pesada e negativa. Por isso não considero estas situações dos cubos de gelo como traumas, pois me refiro aqui não necessariamente a situações ruins e dolorosas.


"E se o real nada mais for do que o irreal da irrealidade?"