terça-feira, 29 de julho de 2008

Teoria dos Diálogos Solitários

Não consigo conceber possível quando alguém diz não conversar sozinho. Certo, todos
pensamos calados muitas vezes, dialogamos em pensamento, mas vejo a real necessidade de ouvir minha própria voz ao conversar, mesmo que solitariamente. Não acredito em monólogos solitários. Quando falo sozinho converso com outrém, não me resta dúvida, são seres diferentes: o que ouve e o que fala.

Quando estou em minha casa constantemente converso comigo mesmo, conto histórias (das quais eu próprio fiz parte). Após um fim de semana ou feriado homérico repito cada parte dos dias, relembro exatamente o que fiz e o que que deixei de fazer. Comento, argumento. Apesar de já conhecer as minhas próprias histórias parece que a partir do momento em que começo a contá-las passo a atualizá-las em mim, novamente as vivencio, as transporto do virtual ao real. Noto que são verdadeiras tentativas de alguma forma vivê-las outra vez.

Quando saio às ruas continuo a conversar comigo, mas agora não mais falo em alto e bom som, na verdade pouco mexo os lábios e controlo meus gestos. Isto porque várias vezes já fui pego falando sozinho, e isto me deixa um tanto embaraçado. Há algum tempo desenvolvi uma espécie de "técnica" para disfarçar meus diálogos: quando estou conversando em um som audível e subitamente alguma outra pessoa aparece (contornando de surpresa uma esquina ou algo do tipo), sou pego totalmente desprevenido, daí então começo a fingir que estava cantando. Assobio, murmuro alto uma melodia qualquer criada no instante para assim fingir que estava cantarolando, e não "falando sozinho".

É engraçado como em certos momentos parece que é permitido falar sozinho, resmugar sem ser taxado de maluco. Porque esses instantes não podem ser levados em conta sempre?


"Quem não fala sozinho vive num eterno silêncio".