terça-feira, 16 de setembro de 2008

Teoria do Tempo/Espaço Estático

Quando não estamos em um lugar ele congela.
A ausência de nossa presença faz com que os acontecimentos e as coisas esperem por nós como estátuas, que só retomam suas ações e seus movimentos quando retornamos ao local.

Sempre lembro do sítio de um amigo, que costumávamos ir em feriados escolares.
Os sofás e camas cobertos por lençóis embolorados e cheios de buracos, os belos móveis de madeira, um cheiro e um ar frio muito peculiares... A casa toda parecia como que absolutamente intacta desde a última vez em que a havíamos deixado. Era mesmo como que não só o espaço, mas efetivamente o tempo permanesse paralisado a partir do momento em que trancávamos a casa e abandonávamos as redondezas.
Até uma bela borboleta de asas azuis que estava em cima de uma cômoda ficou estática, e eu juro que a vi voar pela janela 2 meses depois de voltar ao local, no instante em que abrimos as portas e janelas para arrejar o ambiente.

Hoje vejo que o que estávamos realmente fazendo era arrejando o tempo e o espaço.

Ilustrei a teoria através deste caso porque percebi que é mais fácil entender esta questão quando pensamos em lugares mais leves, solitários. Fica muito mais complexo pensar na avenida paulista ou na wall street totalmente paralisadas após nosso ônibus dobrar uma esquina ou descermos as escada em direção ao metrô.
Mas acontece, tudo pára, pode apostar.

Esta teoria pode também, para os mais desavisados, soar um tanto egocêntrica, mas não é o caso.
O egocentrismo não se reflete nesta situação, a não ser que pensemos em um ego infantil. Se considerarmos as crianças seres egóicos por natureza e excelência, então carimbe esta teoria como egocêntrica, pois tudo aqui é produzido com doses cavalares de ingenuidade. Isso sem contar que a teoria vale para todos. Cada um com seus tempos e espaços.


"Tudo vive em um eterno movimento e repouso, um para o outro, dependendo do referencial"

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Teoria Breve das Criações

Nossas próprias criações têm que nos surpreender.
Apenas satisfazer expectativas não é o suficiente.

Penso muito nas canções que crio.
Melodias que compus só me são realmente valiosas quando as ouço e elas já me parecem claramente um corpo estranho. Algo que desprendeu de mim e adquiriu vida própria. Sensações e sentidos singulares que me fazem pensar: "Caramba, será que fui eu mesmo quem fez isso?".
As escuto como se fossem mesmo uma criação de outrém, chego até a, algumas vezes, não me recordar de quando ou como dado som foi emitido. Apenas sei que agora ele está ali cravado, me satisfaz, e eu sorrio.

Quando não mais me reconheço nas melodias: aí sim me sinto satisfeito.

As criações se tornam realmente orgânicas e livres. Elas se tornam vivas, são agora criaturas soltas no universo.

Posso agora pensar neste blog, nos escritos e suas palavras. No momento em que alguém de fora comenta algo sobre estas teorias começo a gostar mais delas, apreciá-las, pois é como se os outros estivessem me apresentando um desconhecido, um novo ser encantador (e em instantes como esse em que o que mais quero é conhecer novos seres não há sensação igual).

Sobre um tema que anda de mãos dadas com tudo isso, e que me ronda atualmente: as mentiras e verdades, os falsários.
Apenas quero dizer que tenho por intuito me tornar um grande falsário, me trair com sabedoria constantemente.
Criar e logo após já não saber mais se fui eu ou não quem fez aquilo.


"A verdade é o que ela pode; o falso, o que ele quer"

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Teoria da Deficiência Ordinária

Vivemos em um mundo bem estranho.
Elegemos em torno de um senso comum quem são pessoas "conhecidas", "famosas" e quem são pessoas "desconhecidas", "comuns", "ordinárias".

No momento em que "antigos" deficientes (agora portadores de necessidades especiais) adentram um certo ambiente as pessoas quando não tentam disfarçar, observam com olhares oblíquos, avessos, incômodos. (Digo isso usualmente, pois acredito também em olhares comuns, ingênuos e infantis).

Agora, alguém já notou como nos comportamos quando um dito famoso aparece em meio às pessoas comuns?
O mesmo frenesi parece ocorrer.
As pessoas também os olham de forma diversa. O "famoso" é reconhecido pelos desconhecidos, e não há como ele fingir que não conhece essas pessoas, pois mesmo que ele não as conheça, elas certamente o conhecem.
Não há como escapar dos olhares, por isso então digo que os famosos também sofrem de uma deficiência: eles são deficientes de ordinariedade, estão impossibilitados de serem anônimos, comuns.

E aí está o absurdo.
Sempre existiram pessoas que possuissem necessidades especiais, sejam físicas, auditivas, visuais ou etc. Isto é algo intrínseco à humanidade, à natureza.
Já os "famosos" são pura criação Humana, revestida e agraciada (será mesmo uma graça?) com uma aura que a própria sociedade lhes concede. Esta sociedade ínfima da espetacularização, dos ídolos, das celebridades, da busca de um suposto sucesso.

Na verdade, os famosos é que são os verdadeiros deficientes. Os deficientes ordinariais.
Antes nos equivocávamos completamente, denominando assim os que não passam de meros portadores de necessidades especiais...


"Nascer de novo, para não ser famoso"

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Teoria dos Pequenos Vestígios

As melhores recordações são aquelas que deixam apenas pequenos vestígios, não nos permitindo lembrar totalmente do que sentimos.

Me refiro aqui mais diretamente às lembranças da infância, elas são as mais fortes, pois ainda estamos livres das amarras do mundo, estamos o conhecendo, sem saber que teremos que nos controlar(e que seremos controlados) das mais variadas maneiras...

Quando lembramos exatamente ou quase(já que a memória é tão falha) de tudo, os acontecimentos parecem presentes demais para serem considerados lembranças, recordações. É como se ficássemos a repetir a todo instante aquilo que se passou, o mesmo, deixando de viver um agora. No entanto quando tentamos buscar no fundo do poço da memória a recordação, é como se estivessemos presentificando, revivendo, e ainda outra coisa(uma espécie de literatura da lembrança), pois muitas vezes podemos distorcer e recriar nossas próprias vivências.

Quando lembramos de pouco o que ocorre é uma espécie de dadaísmo, onde as coisas parecem estar revestidas de encantos intocáveis.
Muitas vezes o máximo que posso fazer é trazer a tona palavras, soltas e verdadeiramente livres, que remetem às lembrançinhas(de aniversário ou não).


Madeira Felpuda e Cheirosa
Cata-vento
Juquinha e Turma
Telescópio
Phantom
Rede
Manhãs de Mamão
Voleibol de Bexiga
Banhos roxos
Pano ensopado no vinagre



Todos temos certamente uma lista de pequenos vestígios. Reminiscências que nos aportam à uma vontade imensa de viver, de sentir, de criar cada vez mais instantes marcantes.
Então criem suas próprias listas!


"Quero ser uma proustituta da memória"

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Teoria da Nostalgia Medíocre

Noto já há um bom tempo uma forte semelhança entre as pessoas mais velhas, com suposta maior experiência.

A grande e massiva maioria sempre apresenta uma dicotomia intrínseca quando se voltam ao passado:
- ou o sujeito lamenta, de forma particularmente irritante, a perda de seu tempo, a falta de agitação;
- ou ele lamenta a passagem do tempo, de um passado que nunca mais voltará.
São sempre estes mesmos dois vértices que se encontram nos discursos, a lamentação:
tempo disperdiçado X tempo nostálgico.
Uma coisa é certa: sempre se chora as pitangas!

Não se dão nunca por satisfeitos. Só que não são inquietações criadoras, são sim posturas tesas e engessadas, de mãos atadas à impotência.
A estas duas formas de pensamento dou o nome de "nostalgia medíocre".
Elas impedem a existência do presente.

O que fazemos com nosso passado interfere diretamente no que está sendo nosso presente. E no que será nosso futuro.
Será possível então viver sem o tempo cravado em nossas mentes?
Eles devem estar todos misturados.


"Conseguir entrar num nível não histórico de vida... Valorizando o passado na medida em que ele é presente... Mas não é nada além do que é agora... Que se dane... A gente está... E isso nada pode destruir... A não ser que nos matem"

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Teoria das Miniaturas

A paixão nada mais é do que uma miniatura interna da pessoa que nos cativa.

Criamos e alimentamos pequenas criaturas dentro de nós.
E até que uma nova paixão surja, e consequentemente outra miniatura, ficamos a alimentá-las. Como se fossem mesmo uma espécie de feto, mas que nunca chega a ser parido. Elas nascem, crescem, adoecem, minguam e morrem sem nunca serem expelidas. Somos efetivamente hospedeiros dessas parasitas.

A grande questão é quanto alimentamos nossas miniaturas; se demais elas crescem vertiginosamente, podendo até nos engolir. Daí então nós é que viramos as miniaturas... E o pior: miniaturas diante do mundo.
Por isso uma frase que sempre tento profetizar (e permita-me deixar bem claro que sempre tenho o cuidado de pronuncia-la sem nenhum apelo megalomaníaco ou egóico): "Somos maiores do que tudo isso". Isso porque muitas vezes nos tornamos corcundas, encolhemos...

Acho que é possível sustentar mais de uma miniatura dentro de si, mas sempre atente a quanto as alimenta. Outro cuidado: não ir criando e deixando vivas muitas miniaturas, pois assim é capaz de você se tornar total refém delas... Como milhares de formigas que juntas podem te carregar pra onde bem quiserem.

Apesar de todos esses perigos sou fiel criador de miniaturas. Não me canso de criá-las. E quando não há como, fico inquieto.

Nova questão: quanto desta miniatura é realmente parte da figura original; terão elas (miniatura e versão grande) efetivamente alguma relação?
Enfim não quero entrar em mitos, muito menos em cavernas...


"Alimentarei sua miniatura pelo resto do meu viver"

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Teoria da Meia-Volta

Há algum tempo reparei que quase nunca vemos alguém na rua dando meia-volta. Será que todos estão realmente certos de seus caminhos?

Volta e meia isto me ocorre.
Decido algo, ou esqueço, e simplesmente paro meu andar bruscamente (dando um giro de 180°) e sigo o caminho inverso ao qual trilhava. Notei que isto cria uma espécie de frenesi nos outros transeuntes. Todos ficam assustados e um quê perplexos com esta atitude.

Mas por que tal estranhamento acontece? Será que são todos orgulhosos demais para admitirem que estão pegando o caminho errado?
Percebi também que algumas pessoas utilizam certos artifícios para burlar a meia-volta: atravessam a rua e daí então tomam o sentido contrário em que caminhavam; ou param numa farmácia, se pesam (em balanças que não cobram nada é claro) e ao sairem vão em outra direção...

Sou fiel defensor do direito de errar o caminho, de expressar publicamente, e em ação, que estamos equivocados e que por um motivo qualquer nos enganamos quanto à nossa direção.

Agora não posso evitar o soar daquela canção... Cantemos juntos:
"... vamos dar a meia-volta, volta e meia vamos dar! ..."